Mais de duas dezenas de trusts hospitalares do NHS listados pelo NHS England como beneficiários da Federated Data Platform (FDP) da Palantir afirmaram que não estão a utilizar o sistema ou que utilizam apenas partes limitadas dele, de acordo com respostas obtidas através de pedidos ao abrigo da legislação sobre liberdade de informação.

O NHS England afirma que 137 trusts estão ativos na plataforma e identifica 29 como estando a “obter benefícios”. No entanto, vários desses trusts disseram aos investigadores que a FDP não estava operacional, não tinha sido implementada ou não estava a ser utilizada em aplicações de cuidados a doentes. A discrepância foi descrita como “muito enganadora” por um alto responsável da saúde.

Entre as respostas, Epsom and St Helier afirmou que não estava a utilizar a FDP, enquanto Kent and Medway disse que a plataforma não estava atualmente ativa porque o trust tinha dado prioridade a outros trabalhos. A Mersey Care afirmou que ainda não tinha entrado em funcionamento, e a Nottingham University Hospitals disse que não tinha sido acordado qualquer calendário de implementação. A University Hospitals of North Midlands afirmou que a FDP não estava ativa e que não tencionava introduzi-la no futuro.

As conclusões surgem enquanto a ministra da Saúde, Yvette Cooper, enfrenta pressão de deputados e ativistas para pôr fim ao contrato da Palantir para o principal sistema governamental de dados de saúde. A plataforma de £330 milhões destina-se a ligar registos médicos, apoiar altas hospitalares e melhorar o agendamento de cirurgias.

O diretor executivo da Palantir para o Reino Unido e a Europa, Louis Mosley, defendeu o contrato, afirmando que cancelá-lo colocaria a política à frente dos doentes. A empresa também rejeitou as críticas ao seu trabalho e às suas ligações a clientes militares e governamentais.

O NHS England afirmou anteriormente que os trusts que utilizavam a FDP realizaram 117.539 operações adicionais num ano. Mais tarde, reconheceu que não conseguia estabelecer uma relação de causa e efeito, suscitando uma análise do Office for Statistics Regulation, que afirmou que examinaria a questão através da sua função de análise de casos.

Chi Onwurah, presidente da comissão parlamentar da Ciência e Tecnologia, afirmou que as respostas levantavam questões sobre se as alegações relativas aos produtos da Palantir refletiam a sua utilização no mundo real. Pediu ao governo que utilizasse uma cláusula de rescisão prevista para 2027 no contrato e realizasse um concurso público aberto para um fornecedor sediado no Reino Unido. A comissão parlamentar de Saúde também pediu que o acordo fosse cancelado.

A informação foi recolhida pela Medact, uma organização médica de solidariedade que faz campanha contra o envolvimento da Palantir no NHS. A sua porta-voz, a Dra. Rhiannon Mihranian Osborne, acusou os organismos públicos de utilizarem contabilidade questionável para apoiar um projeto controverso e perguntou se os ministros poderiam estar a basear-se em alegações enganosas.

O NHS England afirmou que quase 140 trusts tinham comunicado benefícios resultantes das ferramentas da plataforma, incluindo melhorias nos cuidados e na eficiência. Esclareceu que a sua lista inclui trusts que utilizam o sistema para análises administrativas e submissões de dados, em vez de o utilizarem diretamente para apoiar os cuidados aos doentes.

Assim, alguns trusts classificados como ativos poderão ter a infraestrutura da plataforma instalada sem utilizarem ativamente as suas aplicações. O Torbay and South Devon NHS Foundation Trust, por exemplo, afirmou que não estava a utilizar a FDP operacionalmente, enquanto o NHS England o regista como ativo porque a sua infraestrutura apoia a submissão de dados.

Marc Farr, presidente da NHS Chief Data and Analytics Officers Network, afirmou que os benefícios comunicados tinham de ser exatos, transparentes e verificáveis. A Palantir afirmou que os trusts que utilizavam o seu software tinham registado 117.000 operações adicionais, uma redução de 14,3% nos atrasos das altas de doentes com internamentos prolongados e uma melhoria de 5,6% no número de pessoas que recebiam um diagnóstico de cancro ou a confirmação de ausência da doença no prazo de 28 dias.

Fontes: The Guardian Business.