Nas recentes eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o Partido Democrata garantiu a maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado. Essa significativa mudança política levanta questões sobre a capacidade do presidente Donald Trump de governar e se ele se tornará um "pato manco", particularmente no que diz respeito ao seu impacto nas economias dos Estados Unidos e da Alemanha. Especialistas sugerem que, apesar dessa derrota eleitoral, a influência de Trump sobre a política comercial permanece substancial.

Os economistas não antecipam uma melhoria imediata nas relações comerciais ou uma redução nas tarifas. Thomas Gitzel, Economista-Chefe do VP Bank, argumenta que, com maiorias domésticas difíceis, o presidente pode focar mais na política externa e depender fortemente de ordens executivas em vez de legislação. Consequentemente, as tarifas e os conflitos comerciais podem voltar ao centro das atenções. O Instituto de Pesquisa Econômica Alemã (IW) reforça essa visão, afirmando que as empresas alemãs devem esperar que a direção atual da política econômica e aduaneira permaneça inalterada pelo menos até janeiro de 2029. O diretor do IW, Michael Hüther, observa que, como Trump impõe tarifas por decreto e não por lei, essas medidas continuarão a prejudicar a economia alemã, criando incerteza política para o parceiro comercial mais importante da Alemanha.

Trump retém poder significativo mesmo com um Congresso democrata, incluindo a capacidade de vetar legislações. Anular tal veto exigiria uma maioria de dois terços em ambas as câmaras, um limiar extremamente difícil de alcançar. Além disso, Achim Wambach, presidente do ZEW, alerta contra esperar um retorno fundamental ao livre comércio sob uma maioria democrata. Ele aponta que o protecionismo não é exclusivo da administração Trump, observando um amplo consenso bipartidário em Washington quanto à política comercial em relação à China e às medidas para proteger a indústria doméstica.

A derrota eleitoral também limita a capacidade da administração Trump de estimular a economia dos EUA por meio de programas de estímulo. Holger Schmieding, Economista-Chefe do Berenberg Bank, prevê que o crescimento mais lento dos investimentos em inteligência artificial e políticas migratórias restritivas farão com que o crescimento econômico dos EUA enfraqueça significativamente para cerca de 1,5% até 2028. Essa desaceleração implica que os EUA contribuirão menos para o crescimento econômico global, uma tendência que inevitavelmente afetará economias dependentes de exportações como a da Alemanha. Clemens Fuest do Instituto Ifo acrescenta que, embora novas desregulamentações ou cortes de impostos sejam improváveis, também não há uma mudança em direção a impostos mais altos ou gastos sociais, o que significa que a Europa não pode esperar alívio no comércio com a América.

O aumento dos custos de vida desempenhou um papel decisivo na derrota republicana, impulsionado em grande parte pelos altos preços dos combustíveis resultantes do conflito com o Irã iniciado por Trump. Schmieding antecipa uma pressão crescente sobre o presidente dentro de seu próprio partido para resolver a questão iraniana e baixar os preços da gasolina. Um resultado provável é um acordo EUA-Irã após possíveis rodadas finais de bombardeio, o que reabriria o Estreito de Ormuz. Esse desenvolvimento poderia fazer com que os preços do petróleo, atualmente acima de US$ 100 por barril para o Brent devido à guerra no Oriente Médio, diminuíssem. Schmieding prevê que os preços do Brent cairão para US$ 75 até o final de 2027 e terão uma média de US$ 65 em 2028, beneficiando os consumidores em ambos os lados do Atlântico.

Os mercados financeiros inicialmente reagiram com pequenas perdas, particularmente nas ações de tecnologia. O banco LBBW espera um dólar mais fraco e rendimentos menores nos títulos do governo dos EUA devido à redução da margem de manobra republicana quanto ao orçamento. Marcel Fratzscher do DIW sugere que será mais difícil para Trump reestruturar instituições como o Federal Reserve. No entanto, Gitzel aconselha os investidores a não superinterpretar a reação inicial do mercado, observando que, historicamente, as bolsas de valores ganharam uma média de 10% nos 100 dias seguintes às eleições de meio de mandato, independentemente de qual partido detenha o Congresso.

A vitória democrata também sinaliza mudanças potenciais para regulação, criptomoedas e centros de dados de IA. O setor de tecnologia pode enfrentar regulações mais rígidas à medida que a resistência aos massivos centros de dados de IA cresce devido às preocupações dos residentes com os preços crescentes de energia e água. Até mesmo alguns políticos republicanos impuseram moratórias sobre novas construções, e governadores democratas como Gina Hinojosa no Texas devem seguir um curso mais duro. Em resposta a esses desafios, Elon Musk sugeriu construir capacidade de computação em órbita via SpaceX, embora a viabilidade permaneça incerta.

A indústria de criptomoedas também enfrenta um cenário alterado, pois as comissões do Congresso dos EUA onde Os Democratas agora detêm o poder tradicionalmente foram mais céticas quanto à moeda digital do que os republicanos. Observadores da indústria esperam que iniciativas parlamentares para regras favoráveis à indústria, como a "Lei CLARITY", enfrentem maiores obstáculos. Apesar dessas preocupações, os ativos de criptomoedas não entraram em colapso; o Bitcoin caiu brevemente abaixo de US$ 76.000 antes de se recuperar em direção a US$ 78.000, enquanto outras moedas digitais como Ether, Solana e BNB registraram ganhos moderados.

Fontes: Handelsblatt.